Por Vieira Vivo
– MAS, EU TROUXE UM POEMA!!!!!
Aquela senha suplicada em desespero, teve um efeito paralisante sobre todos. Os seguranças o soltaram imediatamente. O silêncio se impôs sobre os gestos e os olhos fixaram-se ávidos naquele homem rude enquanto ajeitava as roupas rasgadas. Então, levantou novamente o poema, respirou fundo e disse:
– ANTES DE SER MENDIGO EU JÁ ERA POETA!
O coordenador do concurso, imediatamente, providenciou mais duas cópias manuscritas de seu único poema e recomendou-lhe aguardar a chamada. Ficou encolhido em um canto, cabisbaixo, enquanto era observado de soslaio pela plateia distante. Ao anunciarem seu nome, subiu ao palco e recitou agruras, sofrimentos, abandono… e suas palavras, juntamente com as dos outros, misturaram-se aos reflexos luminosos dos lustres. Foi concedido ao seu trabalho “Menção Honrosa” e por isso, foi merecedor de um grosso livro de poesias, o qual foi recebido com o mesmo respeito que devotamos aos objetos sagrados.
Ao término do evento, enquanto as pessoas despediam-se, festivamente, de uma corriqueira e monótona noite de atividade literária, um homem solitário atravessava a rua escura a passos lentos e apertava contra o peito aquela sua valiosa conquista. Por muitas noites, teria ao seu total dispor, como dileta companhia, o travesseiro mais precioso da marquise.
VIEIRA VIVO – Nascido em Santos, em 1954. Poeta da geração mimeógrafo. Participou do Grupo Picaré. Atualmente é editor da revista temática Cabeça Ativa e coeditor e encadernador da Ed. Costelas Felinas (livros artesanais). Doze livros publicados. Obteve com Centelha Insana o prêmio de melhor livro de poesia de 2014 pela IWA – International Writers Association. É também integrante do grupo musical Pau a Pique.







