Por Dani Damma

Typeverything.com – Raising the Roof by Leo Burnett, Toronto. (Tradução livre : Se este cartaz fosse um jovem sem-teto, a maioria das pessoas nem sequer se preocupariam em olhar para baixo)
Hoje eu vi a fome.
Envolta num pano encardido, deitada no cimento úmido.
A fome era um homem.
Não tinha sapatos. Roupas em farrapos.
Pés encardidos, ferida em cima de ferida.
Respirava devagar: a fome comia-lhe as entranhas, a fé, a existência.
Aquele homem existe?
Seu corpo e alma foram tomados por outra coisa que o deixou oco?
Caminha ou se arrasta?
Esconde-se debaixo de marquises e toldos.
Ninguém o vê porque ninguém se importa ou decidimos não ver?
E EU O QUE FAÇO?
A partir do momento que vejo, faço parte do problema.
Um prato de comida? As moedas que carrego na bolsa?
Receio abordar o homem e perguntar a sua história.
O que resolve a situação?
As pessoas ligam pra prefeitura, afinal a pobreza, o feio, deve ser escondida e retirada das ruas por terceiros. Faz parte do trabalho da ronda social que tira da nossa visão o desagradável. O que não podemos lidar.
Eu não ligo pra prefeitura.
Eu vou até o homem que de olhos baixos agradece que eu o vi ali como gente. Dou uma marmita, todas as moedas da bolsa independente se isso vai virar cachaça ou o pingado de amanhã quando a fome apertar.
Os passantes me olham como se eu fosse um animal raro. Outros escolhem olhar o homem com repulsa. Ele sabe.
Comungamos ali eu e o homem que não sei o nome: palavras, gentilezas e um aperto de mão. E então, como tudo na vida seguimos nossos caminhos.
Eu ainda estou impactada com a visão da existência negada e ignorada daquele homem. Isso não passa despercebido para mim.
Durante algum tempo ainda vou pensar, mas vou acabar esquecendo o homem magricela que em algum momento se perdeu e deixou de existir. Mas o que eu não deixo de pensar é no sentido da existência.
Quando deixamos de existir? Pro outro? Pra nós mesmos?







