Por Verônica Kienen Dias
Ele chegou do trabalho, pôs sua maleta no sofá, sentou e ligou a televisão. A esposa estava deitada no sofá maior, folheando uma revista feminina, e quebrando o silêncio disse:
– Pagou a conta de luz?
– Sim, paguei. Perdi a minha caneta hoje – ele disse.
– Assisti um filme ótimo na televisão.
– Esse meu chefe ainda me mata! – ele falou, esfregando as mãos no cabelo.
– A filha da empregada da vizinha está grávida de novo.
– Comprei um livro do Huxley.
– Uma pesquisa mostra que a mulher comete menos infrações no trânsito – ela comentou sobre a reportagem da revista.
– Mandou consertar o armário da cozinha?
– Não, não tive tempo. Meu cabelo está tão quebrado nas pontas.
– Não tem nada de bom na televisão! – disse o marido mudando os canais pelo controle remoto.
– Sonhei com camelo ontem.
– Aquele bolinho de carne não me fez muito bem.
– Você viu onde eu deixei os meus óculos?
– Podemos fazer o mercado no sábado à noite, naquele 24 horas da rua de baixo.
– A samambaia da varanda morreu.
– O botão da minha camisa caiu.
– Acho que vou dormir – disse ele se levantando – Ahh conversamos já o bastante… preciso descansar um pouco… amanhã tenho reunião com o chefe!
Ela o seguiu deixando a revista na mesa de centro.
Entrou no quarto, mas voltou para desligar a televisão.
Verônica Kienen é formada em Letras, mora em Berlim, e colabora como cronista para a Revista Escrita Pulsante.










Lembrei do meu fim de casamento e o abismo do vazio que se tornou.
Parabéns por captare transmitir tão bem esse sentimento.