As pichações são um registro do cotidiano e um dos instrumentos de comunicação mais antigos e eficazes da humanidade. Na Antiguidade, por exemplo, foram marcantes os escritos nos muros de Pompéia, cujas temáticas iam de poesias a propagandas políticas. Ao longo do tempo, essa prática esteve permeada por mudanças, permanências e especificidades, diante do cenário histórico, político, social, econômico e cultural de cada espaço. Um dos momentos mais importantes da história das pichações foi o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985).
Durante anos o país vivenciou um estado de exceção, na medida em que vários direitos humanos foram suspensos devido à atuação de uma eficaz rede de informações composta por diversos órgãos, como o Serviço Nacional de Informações (SNI), Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e o Centro de Informações do Exército (CIE). Eles tinham como base de seu trabalho a vigilância, censura e repressão de pessoas, instituições e segmentos da sociedade considerados um perigo à manutenção da ordem social. Dessa forma, diante do cenário da Guerra Fria, várias pessoas foram torturadas, presas, mortas e desaparecidas por diversos motivos, como o fato de serem suspeitas de estarem vinculadas a um partido comunista, por participarem de protestos ou mesmo por realizarem alguma “atividade subversiva”, como foi o caso de pichar.
Nesse período a pichação comumente era vista como algo ruim (vandalismo, marginalidade, poluição visual) por estar associada a uma série de discursos negativos produzidos pelo Estado, pela sociedade e pela mídia de um modo geral. Isso porque era uma atividade proibida por lei que causava prejuízos financeiros e estéticos aos patrimônios públicos e privados e pelo próprio poder simbólico e comunicativo dos temas pichados. Essas temáticas possuíam grande visibilidade social, tendo em vista a crítica de problemas político-sociais e o poder de influenciar a opinião de inúmeros transeuntes que liam as frases inscritas nos muros das cidades.
É o que podemos verificar na imagem 01, referente à realização de pichações alusivas ao apoio à greve de fome greve de fome de nove dos onze presos políticos da Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá/PE, iniciada em 30/07/1979. Essa fotografia registrou também o apoio à luta pela anistia ampla, geral e irrestrita, uma campanha nacional que foi fundamental para o retorno da democracia ao país.
Vale destacar que durante a ditadura o uso do spray era uma técnica preferencial, pois propiciava maior rapidez e precisão dos traços dos textos, que geralmente eram planejados. Os autores de pichações eram bastante variados (estudantes, integrantes de partidos políticos, anticomunistas, feministas, sindicalistas, segmentos de direita, etc.) e as ações geralmente ocorriam de madrugada, em espaços de grande visibilidade e organizados por grupos armados. Enquanto uma ou duas pessoas pichavam, as demais vigiavam e protegiam o local, tendo em vista o perigo de um confronto policial.
Nesse período a pichação foi uma atividade política bastante combatida por uma rede de informações porque diversos segmentos sociais pichavam, sobretudo, com objetivos de denunciar as arbitrariedades cometidas pelos militares, problemas sociais e mobilizar a população a lutar pelo retorno à democracia brasileira, diante do cenário de censura e coerção existente.
Atualmente, as pichações continuam a constituir a estética citadina e muitas vezes são despercebidas pelos transeuntes diante da correria do dia-dia ou dos códigos de linguagens que são inteligíveis apenas para alguns grupos e/ou sujeitos. Muitas dessas escritas urbanas possuem grande visibilidade/dizibilidade, influenciando a opinião dos passantes/leitores com discursos dos mais variados: do político ao poético. Dessa forma, as pichações são registros cotidianos que têm a sua história e vários aspectos que as marcam, como: autoria, tempo e espaço.
Thiago Nunes Soares é Doutorando em História pela UNIRIO.









