A cultura afro no Pacífico colombiano

Por Sandra Patricia Caicedo
Professora de Sociologia

Imagem: Pinterest

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A Colômbia é o único país da América do Sul que desfruta de um enorme privilégio: estar de costas com o oceano Atlântico (especificamente no mar do Caribe) e no oceano Pacífico; isso contribuiu para que o maior tráfico de escravos na época colonial ocorresse pela Cartagena das Índias no litoral norte e em Buenaventura no litoral sudoeste; dessa forma, muitos dos refugiados ou populações de escravos fugitivos e libertos se localizavam nestas costas, embora fossem reconhecidas como assentamentos livres após a abolição da escravatura em 1851, somente na Constituição de 1991 que se reconheceu legalmente a existência de comunidades afro-colombianas como grupos étnicos com particularidades culturais.

Uma vez que a população do Litoral Pacífico é a que tem a cultura africana mais enraizada em suas práticas religiosas, musicais e alimentares, neste artigo será mostrada parte deste legado, em especial, o das populações localizadas no departamento de Valle del Cauca.

Traços culturais dos afro-colombianos do Pacífico

A região do Litoral Pacífico é uma planície úmida e chuvosa que se estende desde as montanhas de Baudo, na fronteira com o Panamá, até a foz do Rio Mira, nos limites com o Equador, em uma extensão de 78.618 km2. A zona do Pacífico sul se caracteriza por uma paisagem de mangues e pântanos, motivo pelo qual a maioria dos assentamentos se encontra distante uns dos outros e se constituem de casas de palafitas, enquanto o transporte se dá por canoas pelos charcos e rios da área.

A população colombiana é de mais de 4,3 milhões de pessoas, sendo que 1,5 milhões habitam a área do Litoral Pacífico (DANE, 2005), especificamente os departamentos de Chocó, Valle del Cauca, Cauca y Nariño, um total de 80% dos habitantes do pacífico vive na pobreza.

Foto n° 1 - A casa do Pacífico colombiano, a palafita.

Foto n° 1 – A casa do Pacífico colombiano, a palafita.

Foto n° 2- Paisagem de um charco no pacífico colombiano.

Foto n° 2- Paisagem de um charco no pacífico colombiano.

Enquanto Buenaventura é a cidade mais habitada do Pacífico e abriga o porto mais importante da Colômbia (por este porto circulam mais de 50% do comércio externo), os planos de desenvolvimento nacional quase o separaram do futuro: o investimento social é inversamente proporcional à importância dada a sua localização. De fato, esta é uma área onde prevalece a ausência do Estado, onde os grupos à margem da lei (narcotraficantes, paramilitares, guerrilheiros e bandos de criminosos) impuseram “ordem”.

No entanto, em meio a todo este panorama desalentador persiste uma alegria cultural única em seus habitantes que contagia até o espírito mais desesperançado e ela tem relação especificamente com a música cheia de tambores, marimba (denominado como “piano da selva”) e o guasá, acompanhados de cantos bonitos (grupos de mulheres cantoras) e danças que narram à vida no Pacífico.

Como exemplo desta musicalidade, temos o currulao, cuja origem está relacionada aos tambores da religião africana, a chirimía, o bunde e o conjunto de marimba. Todas essas expressões musicais foram incorporadas a um festival que busca conservá-las como patrimônio cultural: o Festival de Música del Pacífico Petronio Álvarez. Este evento, chamado assim em homenagem ao compositor mais importante da região, é celebrado há quase duas décadas na cidade de Cali. No mês de agosto, este festival busca mostrar compositores, grupos musicais e pesquisadores da música afro-colombiana, bem como ressaltar a cultura negra no que diz respeito à gastronomia, penteados, pinturas ³, vestidos, joalheria, artesanato, etc.

Foto n° 3 - Tipo de penteado dos afro-colombianos (foto de www.puzlo.com)

Foto n° 3 – Tipo de penteado dos afro-colombianos (foto de http://www.puzlo.com)

Entretanto, a religião também fez florescer práticas musicais que, em meio ao sincretismo de um povo explorado e ignorado por um longo período da história da Colômbia, denotam o amor filial, a compaixão, a solidariedade com o oprimido e os demais traços fundamentais do cristianismo. O que tornou significativas estas manifestações religiosas foi o forte sentido de comunidade que se manifesta em suas festas patronais (Nossa Senhora do Carmo, Virgem Maria, Santo Antônio, entre outros) e os rituais fúnebres, é especial os das crianças: quando uma criança com menos de sete anos morre (chigualo), há um ambiente de alegria e entusiasmo, porque este “anjinho” escapou do sofrimento e alcançou “a glória de Deus”, na noite de seu velório prevalecem os cantos que animam a alma que chega ao céu para afugentar os “maus espíritos”. Os cantos religiosos como o louvor, o arrulho e os salves (louvores de Santa Maria), combinam de forma indistinta referências à vida do falecido e exortações místicas.

Foto n° 4 - Ritual fúnebre para uma criança de menos de sete anos (foto de cali.gov.co)

Foto n° 4 – Ritual fúnebre para uma criança de menos de sete anos (foto de cali.gov.co)

Esses cantos são da época da escravidão e, em princípio, foram evocados como relatos satíricos para repelir o fato de serem considerados como mercadorias.

Assim, a religiosidade e a visão de mundo afro-colombiana se relacionam com o esquema de religiões africanas subjacentes em sua cultura.

Fotos sob responsabilidade da autora do artigo.

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