Escritas pulsantes: a ponte possível, o ponto provável, a-travessia

Arte: Raquel Gomes

Arte: Raquel Gomes

Em Fragmentos de um Discurso Amoroso, Barthes dizia: “A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos nas pontas das palavras”. Com Barthes percebemos que a linguagem é o elo entre as palavras, as coisas e, sobretudo, o ser, já que é a vida e o coração da experiência que busca se traduzir ininterruptamente. Para que haja experiência é imprescindível que exista a pulsação do ser e que este mesmo ser se vivifique e encontre-se movido pelo desejo de dizer algo por meio da palavra, mas não qualquer palavra, há que ser a palavra em suas duas faces: imponência conjugada à pura poesia.

A palavra, aqui entendida como escrita, é a parteira dos sonhos: dela viemos e nela nos regozijamos. A identidade está no duelo, este que constitui a essência humana — veja você que não há como ser cartesiano diante dos abismos do ser. A palavra, por ser fonte de vida, habita o movimento paradoxal: ao inscrever-se, escreve a si mesma; ao traduzir, se oculta, deixando em suspenso o enigma e tornando-se, dessa forma, a ponte possível — o ponto provável.

É, justamente, dessa cadência que emerge uma pulsação desconcertante e, ao mesmo tempo, indispensável. Assim, para que pulse é preciso que haja febre nas pontas dos dedos, febre louçã capaz de anuviar pensamentos e de colocar em xeque a pretensa exatidão do ser. A escrita não pede para ser, ela simplesmente é, e está no entremeio: aquele espaço entre o dito e o que ficou por dizer, o vão que se quer apagar, mas que insiste em aparecer, a insinuação desejosa…

Ela é a própria linha tênue e seus caminhos por desbravar. Dela extraímos a vida, principalmente quando, com a boca seca de palavras, o ser carece de comunicar-se, de dizer-se, enfim, de desvencilhar-se do peso da história por ele tecida cotidianamente. Diante deste cotidiano é que o ser busca sangrar suas inquietudes, para isso há que se viver a escrita e nela latejar, assim como pulsa o coração-correnteza. É por meio da escrita que pulsa o desassossego desmedido que corrói a experiência humana.

Certa vez, Clarice Lispector em Um sopro de vida chegou a dizer: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos, porque neles vivemos. […] Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras […]. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo”, mas, de igual modo, escrever é viver…

Escrever é estar atento às minúcias que se aconchegam à vida, que nos ausentam das zonas de conforto e nos proíbem de congelar o sorriso pela trépida força da necessidade. A escrita pulsante pulsa porque é vida; pulsa porque se faz e refaz daquilo que de mais belo e grotesco tem o ser: Viver —, e assim correr o risco da existência que acontece neste exato momento (ou nem tão exato assim).

 

Por Debora Duarte dos Santos, em junho de 2014.

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